Dezembro
Capítulo 23

_Bom dia. - Ele dirigiu-se aos jornalistas. O silêncio dominou a sala. - Primeiro peço desculpas por te-los feito esperar. Depois, imagino que todos devam estar curiosos sobre o motivo dessa coletiva, já que não deixei os rapazes adiantarem nada.
_Não seria sobre seu acidente nos Estados Unidos? - Um dos repórteres comentou. Iniciou-se um burburinho. Cessado imediatamente quando Kian voltou a falar.
_Sim e não. Meu acidente tem a ver com o caso, mas não é o assunto principal. - Ele parou por um minuto e pediu uma cadeira. Sentou-se. - Terei que ficar sentado... ainda estou convalescendo. Bem, primeiro eu falo. Quando terminar, abro para perguntas.
Os presentes permaneceram em silêncio. Eu não estava participando. Estava mais nervosa do que se estivesse naquela maldita sala. Ronan pegou água com açúcar. Mas não ia ajudar.
_Acredito que a imprensa tenha noticiado alguma coisa sobre um assassinato, há alguns meses atrás. O assassinato do renomado psiquiatra londrino Peter Madison por sua amante enlouquecida Lydia Doyle.
Os jornalistas reiniciaram o burburinho.
_Sim, esse caso foi página principal em alguns jornais. - Outro se manifestou. - A mulher teria ficado com ciúmes do médico e o esfaqueou dentro de um prédio da Universidade de Londres.
_Exatamente isso que todo mundo sabe. Mas agora eu estou aqui para contar a verdade, exatamente o que quase ninguém viu.
Manteve-se o silêncio. Ronan recebeu um bip em seu celular. Meu coração estava disparado. Ele murmurou em meu ouvido “está na hora”. Deu-me um vestido para trocar. Depois me conduziu por alguns corredores. Pude ouvir gente falando. Pude notar flashes. Mas Ronan não deixou que eu entrasse na sala. Minha vontade era passar por cima dele. Mas imaginava que eles sabiam o que estavam fazendo.
_E que verdade seria essa? - Perguntou uma fotógrafa.
_Quem são os verdadeiros assassinos. Quem era Peter Madison. Por que Lydia foi acusada de um crime que não cometeu. E o crime mais horrível ainda que esses assassinos cometeram... e que talvez ainda cometam.
_Por que isso agora, Kian? - Outro repórter. Mais um burburinho. Eu podia ouvir a voz de Kian. Também podia sentir meu coração pulando pela boca.
_Porque eu precisava tomar uma providência, já que ninguém competente para isso tomou. E meu jeito de fazer as coisas é esse, vindo a público, já que sou uma pessoa pública. Temo pela vida de Lydia, pois esses assassinos serão capazes de tudo para silencia-la. Somente ela é testemunha. Mas vamos agora aos fatos.
Kian fez mais uma pausa. Bebeu água e limpou o sangue do rosto.
_No dia em que Peter Madison foi assassinado, Lydia Doyle foi ao prédio da neurologia com um gravador conseguir provas sobre um crime que ela tinha presenciado. Meses antes, ela viu uma pessoa ser morta naquele mesmo prédio, por renomados médicos, que praticam o crime de tráfico de órgãos. - O rebuliço foi geral. Kian pediu silêncio e prosseguiu. - Bem, pensando estar muito perturbada, ela procurou Peter Madison para se tratar. E fez uma amarga descoberta: o psiquiatra em quem confiou, para quem contou tudo que sabia, estava envolvido na trama e já a tinha denunciado para os criminosos. Eles a estavam observando, esperando a hora para dar o bote. Foi quando ela decidiu agir. Vendo que havia pessoas no prédio em horário inadequado, correu escondida para lá. Foi quando presenciou o assassinato de Peter Madison, por razões que ela não pode ouvir. Assustada, deixou-se ver pelo assassino, que achou melhor torna-la a vilã do conto de fadas, para que ficasse desacreditada. Inventaram um motivo, ela estaria tendo um caso com o psiquiatra. E cuidaram para que ela não comparecesse à audiência para se defender. Mas agora a trama está revelada para os senhores. A farsa deles não pode mais ser suportada, gente demais sabe da verdade.
O rebuliço não foi maior porque não dava. O falatório foi geral. Cada um com uma convicção. Kian ainda tinha mais a dizer. Outra pergunta lhe foi feita.
_Mas... Kian, como você sabe disso? Que ligação teria o Westlife com essa mulher?
_Bem, o Westlife em si não tem nenhuma ligação com ela. Acontece que existem alguns fatos que inocentam Lydia. Fatos para os quais ninguém atentou. As digitais de Lydia só estavam na arma porque ela a segurou realmente, após o crime. Ela nunca negou esse fato. A testemunha principal da acusação era um vigia que a teria visto... pois como esse vigia a viu se naquela noite não havia escala para vigia? Basta olhar o livro de ponto. E o motivo para o crime inexiste.
_Como inexiste? - O mesmo repórter perguntou. - Peter Madison iria terminar o relacionamento deles.
_Não, ele não ia terminar nada. Lydia não foi se encontrar com Peter naquela noite, simplesmente porque eles nunca tiveram um caso. Lydia tinha sim, um amante. Mas nunca foi Peter Madison. Ela não teria o menor motivo para mata-lo por ciúmes. Ela, de fato, o detestava.
_Então quem seria esse amante? Como podemos comprovar isso que você fala?
_Mais simples ainda. O amante que Lydia tinha é esse que lhes fala. Eu, Kian Egan. Por isso estou aqui agora, para tentar salvar da clausura a mulher que eu amo, e meu filho que ela espera.
Se já havia tumulto, este se triplicou. Jennifer estava boquiaberta. Nem ela seria capaz de tanta ousadia. Nem ela seria capaz de desafiar aqueles crápulas tão claramente. Katty Malone estava sentada em uma cadeira. Ela se abanava com uma revista. Seus olhos fixos não tinham expressão. Nenhuma das duas acreditava no que Kian tinha acabado de fazer. Nem seus próprios amigos. O único que parecia se divertir era Ronan. Naquele minuto, ele saiu da frente da porta. Eu olhei para ele. Como que pedindo autorização para entrar. Um simples movimento de cabeça me disse “sim”. Demorei a acreditar mais ainda. Era mais fácil conceber a liberdade que a presença de Kian. Entrei correndo na sala. Empurrando todos os jornalistas. Atravessando no meio das cadeiras. Pude ver Kian sentado em meio a microfones. Ele parecia tão... vivo. Não pude me conter.
_Kian! - Gritei, entre lágrimas. - Kian!
Ele ouviu. Levantou-se sorrindo.
_Lydia...
Ele disse meu nome tão baixo que nem ele mesmo ouviu. Disse só para si. Como que para sua satisfação pessoal. Caminhando com dificuldade, ele andou até mim. Quando nos aproximamos, não sabíamos o que fazer.
_Pensei que Ronan tinha esquecido de te trazer aqui. - Ele disse. Suas mãos queriam me tocar. Mas não conseguiam.
_E eu pensei que nunca mais te veria. Pensei que nunca mais sairia daquele lugar horrível. Pensei...
_Não pense mais nada. - Ele me puxou contra si. - Não pense... eles agora vão investigar. Eles têm que investigar... chega, eu devia ter feito isso antes. Mas eu fui tão fraco...
_Kian... me perdoe. - Era o que eu conseguia dizer.
_Perdoar? Eu devo te perdoar por me amar ou por me dar um filho? Acho que nada disso tem perdão! São crimes inafiançáveis.
Levantei a cabeça e o encarei. Nem naquele momento ele conseguia deixar de fazer piadas.
_Como assim inafiançáveis?
_Bem... já que seu divórcio com aquele manipulador foi homologado e já que seu processo vai ser revisto... eu acho que você não tem outra saída além de se casar comigo. É uma pena terrível, mas não consegui pensar em nada pior.
Foi minha vez de ignorar meus conhecimentos médicos. Saltei em seu pescoço e o beijei. Beijei o beijo que estava preso dentro de mim. Que estava guardado. O beijo que eu tinha reservado para o dia em que contaria sobre o bebê. Estávamos sendo assistidos em rede nacional. O país todo viu aquele momento. Foi um pedido mais que oficial.
Da mesma forma rápida que tudo começou, tudo acabou. Da mesma forma estúpida. Depois daquela coletiva, precisei ir direto para uma delegacia. Kian tinha falado o que sabia. Era minha vez de contar o que eu sabia. Dar nomes às cabras. Pensando em como provar minha teoria, acabei achando uma saída. Meses procurando uma prova, e nunca tinha pensado na mais óbvia. O depósito de lixo hospitalar. Era para lá que toda aquela sujeira ia. Era para lá que levavam os corpos retalhados. Bastava procurar os restos. Não era simples. Não era a prova que eu queria. Mas daquela vez eu estava no comando. Que eles brigassem anos por causa daquilo. Desde que não mais me envolvessem. Queria apenas viver minha vida.
Ian nasceu menos de um mês depois que Ronan me tirou do manicômio. Foi um parto tranqüilo. Meu filho nasceu imenso. Pesava mais de quatro quilos. E media quase sessenta centímetros. Até eu me assustei. Mas ele nasceu sem seqüelas. Era um lutador. Como a mãe. Era assim que Jen dizia. Ironicamente, ou para evitar brigas entre minhas amigas, escolhi a Dra. Malone para madrinha da criança. Por causa dela, passei por muitos problemas no hospital psiquiátrico. Mas por causa dela também eu consegui sair de lá. Devia a ela minha liberdade. Tanto quanto devia aos outros.
Depois do casamento, fui morar em Sligo. Acabei não terminando o curso de medicina. Não poderia terminar. Não era mais uma pessoa normal. Tive medo de Kian descobrir isso. E então me rejeitar. Mas ele jamais me rejeitaria. Ele era perfeito demais para isso. Estava acima dos julgamentos. Ele teve algum trabalho para se recuperar do acidente que sofreu. Tudo por causa das estripulias indevidas que fez. Somente para me salvar... somente para nos livrar, eu e Ian, do inferno. Nunca mais quis saber sobre o processo dos traficantes de órgãos. Era mais uma parte para esquecer. Minha vida seria a partir daquele beijo. A partir do momento em que reencontrei Kian. Eu não teria mais passado. Em alguns momentos cheguei a desejar ter amnésia. Para realmente esquecer de tudo. Não deu. Mas o passado se apagou lentamente da minha vida. Nunca mais vi Steve. Ele sumiu fisicamente. Da mesma forma que sumiu dos meus pensamentos. Sua lembrança passou a ser um branco. Quando vejo as marcas nas minhas costas, não consigo lembrar como aconteceu.

Dezembro